Governo Lança Programa “Qualquer BI” e Declara Identidade Oficial Como Estado de Espírito

Num anúncio transmitido ao país por meio de um púlpito, três bandeiras e um projetor que teimava em mostrar o protetor de tela “DVD”, o governo apresentou ontem o novo programa nacional “Qualquer BI”, uma iniciativa revolucionária que promete simplificar a burocracia substituindo a noção tradicional de identidade por algo “mais fluido, mais moderno e, acima de tudo, mais fácil de carimbar”.

Segundo o ministro da Administração, o Bilhete de Identidade clássico será gradualmente substituído por um modelo conceptual. “Durante décadas, o cidadão foi obrigado a provar quem era com fotografia, assinatura e data de nascimento. Isso pertence ao passado. Hoje, o importante é a intenção de ser alguém”, afirmou, enquanto segurava um cartão em branco com grande solenidade institucional.

grandiose government press conference in a marble hall, officials presenting a completely blank identity card to journalists, national flags, confused photographers, projector showing bureaucratic charts, cinematic lighting, absurdly serious atmosphere

O documento, de acordo com o decreto, poderá ser solicitado por qualquer pessoa que compareça a um balcão, suspire profundamente e diga com convicção: “sou eu”. A frase deverá ser repetida duas vezes em dias úteis, ou uma vez só se acompanhada de olhar firme e pastinha de plástico translúcida, reconhecida pelo Estado como acessório de elevada credibilidade.

A nova política nasce, explica o executivo, de uma constatação simples: os serviços públicos já vinham funcionando com base em palpites há anos, faltando apenas regulamentar o método. Um relatório interno de 486 páginas concluiu que 73% dos processos administrativos eram resolvidos “por energia”, 19% por semelhança com alguém conhecido, e os restantes 8% após o funcionário perguntar a um colega: “isto aqui vai para onde?”.

Entre as principais vantagens do “Qualquer BI” está a emissão instantânea. O cidadão chega, declara uma versão satisfatória de si mesmo e sai com um número oficial gerado por uma impressora barulhenta ligada a uma extensão duvidosa. Caso a máquina encrave, a identidade provisória poderá ser escrita à mão num guardanapo timbrado, desde que em letra legível e com pelo menos um selo.

Os primeiros utentes relatam experiências transformadoras. Um homem que entrou no posto como Armando saiu registado como “Armando, talvez”, o que considera um avanço administrativo considerável. “Antes eu era só eu. Agora sou uma possibilidade reconhecida pela República”, disse, exibindo o documento com o orgulho de quem finalmente venceu o formulário 7-B, lenda urbana que durante anos assombrou corredores públicos.

busy public service office with endless queues, people holding folders, one delighted citizen raising a bizarre semi-official identity slip stamped excessively, clerks at old desks surrounded by paper mountains, comic bureaucratic realism

O sistema digital também foi reformulado para acompanhar os novos tempos. No portal oficial, o campo “Nome Completo” foi substituído por “Como gostaria de ser tratado em discussões formais”, enquanto “Data de Nascimento” agora aceita respostas como “numa terça memorável” e “antes daquela chuva forte”. O campo “Filiação” tornou-se opcional após os testes mostrarem que metade dos requerentes escrevia apenas “sim”.

Especialistas em documentação pública garantem que a mudança coloca o país na vanguarda mundial da papelada imaginativa. “As nações mais avançadas caminham para identidades flexíveis, interoperáveis e ligeiramente metafísicas”, explicou uma professora de Direito Administrativo, cercada por pilhas de dossiês tão altas que já constavam como relevo no mapa municipal. “Se o Estado acredita em si, o cidadão também pode.”

Nem todos, porém, receberam a medida com entusiasmo. A associação dos fotógrafos para documentos criticou o fim da foto 3x4 de expressão derrotada, patrimônio emocional de sucessivas gerações. “Aquilo era o último momento em que o país se via verdadeiramente unido”, lamentou um profissional com 32 anos de carreira em fundos cinzentos e o raro talento de fazer qualquer pessoa parecer procurada internacionalmente.

Nos mercados, a notícia já teve impacto. Vendedores ambulantes passaram a oferecer capas protetoras para documentos ainda inexistentes, bem como carteiras com compartimento especial para comprovativos de identidade hipotética. Em algumas cidades, surgiram intermediários prometendo acelerar o processo mediante pagamento e uma breve descrição da personalidade desejada.

street market in a lively lusophone city, vendors selling absurd identity accessories like velvet document holders and golden stamp kits, colorful stalls, amused crowd, playful bureaucratic chaos, warm daylight

Fontes próximas do gabinete confirmam ainda que uma segunda fase do programa está em estudo. Nela, outros documentos poderão ser modernizados. A carta de condução passaria a atestar apenas “forte vocação direcional”, o cartão de contribuinte seria substituído por um aceno responsável, e o registo criminal viria em versão resumida, com a elegante classificação “houve episódios”.

Para tranquilizar a população, o governo assegura que o “Qualquer BI” terá mecanismos robustos de segurança. Cada documento contará com um carimbo oficial borrado, uma assinatura indecifrável e uma marca de café no canto inferior, elementos considerados extremamente difíceis de replicar por amadores sem acesso a repartições de nível médio.

No encerramento da cerimônia, os presentes foram convidados a formar fila simbólica para experimentar o novo sistema. Após quarenta e cinco minutos de espera, um funcionário abriu uma porta, olhou para a multidão e anunciou: “próximo quem?”. O país, pela primeira vez, sentiu-se plenamente identificado.