Relato do Vale dos Que Pousaram Abacaxi Sobre a Pizza

Cheguei ao vale em silêncio, ou melhor, no tipo de silêncio que só existe quando milhares de almas mastigam em culpa. Não era um silêncio puro: havia ao fundo um borbulhar de queijo interminável, um estalar de fornos nunca desligados e, de quando em quando, o som úmido de uma fruta sendo esmagada por mãos arrependidas. O ar era morno e adocicado, mas de uma doçura cansada, quase moral. Respirá-lo era como inalar sobremesa durante um sermão.

Disseram-me os benfeitores que eu pisaria, naquela descida, uma região de profundo aprendizado vibratório: o Vale dos Que Colocaram Abacaxi na Pizza. Não dos que apenas cogitaram. Não dos que, em juventude impensada, aceitaram uma fatia numa festa de firma e seguiram adiante. Não. Ali se reuniam os convictos. Os evangelizadores da calda escorrendo sobre o presunto. Os missionários do “você precisa provar de mente aberta”. Os que franziram a testa para a tradição e, com a gravidade de um legislador cósmico, decretaram: “combina, sim”.

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A paisagem feria sem violência. O solo era coberto por uma massa esponjosa que cedia sob os pés, expulsando baforadas de orégano fatigado. De fendas na terra brotavam coroas de abacaxi morno, com espinhos moles, vergados pelo próprio açúcar. As árvores, se assim posso chamar, davam azeitonas indecisas, que jamais amadureciam por inteiro. Em certos rochedos, via-se o escorrimento perpétuo de um molho agridoce, viscoso e filosófico, formando lagos rasos onde os recém-chegados contemplavam o próprio reflexo deformado entre rodelas flutuantes.

Foi então que um espírito se aproximou de mim, trazendo no semblante a palidez dos grandes equívocos temperados. Seu peito brilhava com manchas douradas, como se a consciência lhe houvesse assinalado, uma a uma, as ocasiões em que dissera “o contraste é justamente o charme”. Curvou a cabeça, e falou:

— Irmão, não zombeis de nós. Também eu, quando encarnado, cria estar acima das querelas pequenas da mesa. Julgava-me conciliador, quase evoluído, por promover a união entre a fruta e o forno. Dizia que os extremos deviam dialogar. Que o salgado precisava acolher o tropical. Ah, quantas frases elegantes usei para não chamar pelo verdadeiro nome o meu impulso: imprudência coberta de entusiasmo.

Sentamo-nos à margem de um riacho de caldo ralo, onde passavam, boiando lentamente, folhetos de pizzaria de épocas diversas. Cada um continha promoções já expiradas, e isso lhes aumentava a melancolia. O espírito continuou, com a resignação de quem já se ouviu demais:

— No início, a pena pareceu branda. Serviam-nos pizzas fumegantes a toda hora. O perfume subia promissor. A borda vinha dourada, perfeita, e o queijo faiscava como lembrança de infância. Mas, no instante em que mordíamos, a fatia revelava sua lei. O abacaxi, sempre excessivo, vertia um suco sem fim, que atravessava a massa, a mão, a manga, a autoestima. Nunca queimava a língua o bastante para justificar o sofrimento, nunca esfriava o bastante para permitir consolo. Ficávamos presos no morno eterno, essa temperatura em que até o erro perde o heroísmo.

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Observei então os demais habitantes do vale. Alguns vagavam com caixas de pizza que jamais conseguiam abrir completamente; a tampa sempre enroscava no instante da revelação. Outros discutiam em círculos, sustentando até o esgotamento que “depende do preparo”, “na Itália também inventam coisas” ou “o problema é o preconceito”. Havia os mais penitentes, designados às Colinas da Escorrência, onde precisavam equilibrar, por horas incontáveis, fatias triangulares cujo centro mole vergava sob o peso de cubos brilhantes. Quando a ponta cedia e o recheio despencava, um sino tocava ao longe com grave decepção culinária.

Entretanto, o setor mais comovente era o dos ex-defensores militantes. Eram almas que, na Terra, não se contentaram em consumir sua escolha: sentiram a necessidade apostólica de converter parentes, amigos, colegas, entregadores e desconhecidos em redes sociais. A esses cabia um labor particular. Reuniam-se em grandes salões de toalhas xadrez, diante de mesas infinitas, para ouvir depoimentos de nonas ofendidas, pizzaiolos de testa franzida e tios que só queriam jantar em paz. A cada frase — “era só pedir meia sem”, “ninguém perguntou tua opinião”, “doce é sobremesa, meu filho” — uma a uma, pequenas campainhas tilintavam em seus campos perispirituais.

— E não há esperança? — perguntei, tomado por natural piedade.

O espírito ergueu os olhos, e neles vi a tênue claridade que só nasce depois de muitas guardanapos desperdiçados.

— Há sempre. Ninguém permanece aqui para sempre. O amor divino não abandona sequer o homem que reduziu a pizza a debate tropical. Muitos, após sincero arrependimento, são transferidos para regiões de reeducação. Começam modestamente. Aprendem a respeitar a mussarela em seu silêncio. Contemplam o margherita como quem observa um lago sem pedras. Alguns são autorizados, depois de séculos de compostura, a aproximar-se da calabresa sem querer “dar um toque”. Os mais renovados regressam à carne com missão nobre: calar-se diante do cardápio e aceitar que nem toda ousadia merece forno.

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Enquanto ele falava, um cortejo passou ao longe. Eram recém-chegados. Vinham ainda com a expressão de quem pensa que conseguirá argumentar. Traziam consigo potes de molho à parte, opiniões embaladas em convicção e a leve arrogância daqueles que confundem paladar com vanguarda. Mal haviam entrado no vale quando uma névoa de vapor açucarado desceu sobre eles. O primeiro ergueu o dedo, talvez para iniciar uma palestra sobre equilíbrio de sabores, mas no mesmo instante recebeu nas mãos uma fatia ardente, mole ao centro, luminosa de calda. Seu rosto caiu com a solenidade dos que, enfim, encontram o próprio espelho.

Despedi-me do penitente quando as trombetas do turno vespertino anunciaram nova fornada de reflexão. Ele afastou-se devagar, levando consigo uma caixa de papelão translúcida, dessas que a eternidade fornece aos desavisados. Antes de partir, voltou-se uma última vez e disse:

— Se ainda vos for permitido levar conselho ao mundo dos encarnados, dizei-o com caridade. Não condeneis com ódio. Instrui com firmeza. Há criaturas que estão a um comentário petulante de cair aqui. Falai-lhes do limite. Falai-lhes da fronteira sagrada entre o jantar e a salada de frutas. E, se não ouvirem, ao menos recomendai guardanapos.

Saí do vale com os calçados impregnados de massa e meditação. Durante longo tempo, conservei na memória aquela doçura aflita, aquela umidade filosófica, aquele sofrimento amarelo e fibroso que se agarrava ao ser como lembrança de uma decisão tomada com excesso de autoconfiança. E compreendi, enfim, que o Universo é vasto, misericordioso e pedagógico, mas há combinações cuja cobrança começa já no segundo pedaço.